domingo, 21 de dezembro de 2008

Novas dádivas da música brasileira

Por Renan Oliveira
Que a música passou por uma gigantesca revolução nos últimos anos, e cada vez mais suas transformações são de velocidade, talvez, inimagináveis há cinqüenta anos, isto é fato. Portanto há inúmeros fatores para que, ainda, muitos artistas sejam marginalizados, não por desvalorização artística, mas para o mercado capitalista, pois não existe arte no capitalismo.
Esta semana resolvi baixar, no meu mundo de discos fabulosos, cujo não revelo a ninguém, discos de jovens cantoras brasileiras que, por muitos razões, principalmente mercadológica, são impedidas de mostrar, também, seus belos trabalhos artísticos.

Foram cinco discos: o primeiro foi a Roberta Sá, do Rio Grande do Norte, cuja mora no Rio, com o belíssimo Sambas e Bossas, de 2004, seu segundo disco. Roberta, que largou o jornalismo para seguir suas vocações oficiais, mostra um bom samba com muito violão e clássicos da MPB. A primeira música começa com Cartola passando por compositores de sua geração, sem esquecer-se de Tom Jobim. O segundo Foi de Ana Martins, Futuros Amantes, de 2001. Depois que baixei o disco, ouvir e fui ao Google checar seu currículo e descobrir que é filha da cantora Joyce. O disco, com um samba e uma voz doce da jovem, que canta com, além de João Donato, a própria mãe. Canta Wave em duas línguas além de futuros amantes, música de Chico Buarque que dar título ao disco. Sua voz plácida parece de menina encantada. O terceiro foi Adriana Deffenti, que estuda Licenciatura em música, e seu primeiro disco, Peças de Pessoas, de 2002 é o que ouço. Adriana faz uma boa MPB, que não têm raízes do samba, mas sua estética musical se caracteriza pela batida mais acelerada da bateria e predominância de guitarra. Pode chegar ao Pop com categoria. Foi aclamada pela Veja como a mais nova safra da MPB. A futura professora de música faz seu espetáculo com Pô, amar é importante! a sétima música do álbum e ainda conta com a faixa Going To California, com um violão e belos efeitos. Esta outra garota era para está numa das maiores agências de publicidade da América, a W/Brasil, mas foi o próprio Washington Olivetto que lhe deu apoio para seguir sua carreira verdadeira e gravar seu primeiro disco, em 2005, intitulado Meu, com clássicos da MPB, e músicas de Tom Jobim e Chico Buarque. Neste disco, além de cantar Água de beber, do Tom, ela canta What´s New em língua inglesa, naturalmente. O nome dela é Ana Paula Lopez, de 27 anos. E finalmente- até aqui pelo menos- O disco de Bruna Caram, de 2005. Um disco sublime, de primeira grandeza, de uma garota de 21 anos. Seu som de baladas leves e músicas mais intimistas com influência do violão se destacam muito bem no álbum. A cantora é sobrinha da também cantora Ana Caram. Suas letras falam de amores perdidos e iludidos, perdas e ganhos, sentimentos profundos, sonhos e paixões. Esta menina merece destaque, sem dúvida, pois é uma dádiva que incorpora a alma artística.

Os discos, todos eles baixados gratuitamente na internet, são de grande representação na música brasileira, pois estas meninas da MPB conseguem fazer a hibridez do clássico com o moderno. Estas cantoras são de extrema importância, pois significa que ainda se fazem música autenticamente brasileira e que é preciso mostrar isto. Por isto que a internet é fundamental neste processo.

Elizete Cardoso, Alaíde Costa, Dalva de Oliveira e Elis Regina devem estar felizes em ouvi-las.

A crise como reflexão

Por Renan Oliveira
O ser humano é um animal de transformação perene, pois é um ser inquieto e suas angústias o levam para um patamar de complexidade e confusão devido, ainda, a sua imaturidade de buscar a real significado da essência humana. Outrossim, as construções humanas simbólicas/ materiais se enquadram neste contexto, pois são apenas produtos humanos.

Nos últimos anos crise é a palavra chave/mágica para os canais de comunicação levarem ao público determinado declínio ou problema de algum setor, principalmente os que envolvem direta e indiretamente a economia. Quando isto acontece, todos os olhos se voltam para esta new crisis, nada mais é tão importante, chega a ser tema de capítulo de novela até o colunista de arte, que fala, por exemplo, que não tem público devido a crise. Para as pessoas mais simples, de baixo nível escolar, fica complicado entender “as crises”, pois os telejornais mais complicam do que esclarecem, de modo que, mais aterroriza do que comunica e noticia. Como há muito tempo a impressa perdeu sua credibilidade -se é que já teve- fica difícil saber se realmente há a crise ou se apenas é um jogo ideológico, típico da impressa burguesa brasileira, por conveniências políticas, ora fazendo uma matéria jornalística (?) mal elaborada e confusa, ora colocando um comentarista para reforçar seu ponto de vista. Os colunista e comentarista também são outros que seus discursos estão nas entranhas ideológicas.

Há oito anos quatro crises, destas que, talvez, só existam na pauta dos jornais, tomaram conta dos comentários de boteco de esquina até em bares onde servem uísque 18 anos. Alguém lembra a crise do apagão do ano 2000, pré-anunciando o fim dos tempos? Depois a crise política, devido aos escândalos (?) do mensalão? Há pouco tempo não se falavam em outra coisa que não a crise aérea no país; doutores e especialista comentando e dizendo como deveria ser e acontecer e etc.. Todo mundo sabe de tudo. As crises são complexas, mas as coberturas são sufocantes em curto período de tempo e efêmera; é só esperar a próxima chegar e dar tchau. Neste caso a crise aérea deu lugar a crise moral/conjugal de Renan Calheiros. Queriam saber até porque ele não usou camisinha para comer a Mônica Veloso. A assessoria do senador deveria enviar uma nota à imprensa respondendo: furou!

Há alguns meses vivemos os fins dos tempos com a crise econômica mundial: a tal recessão econômica. O que é difícil saber são suas proporções reais, já que impressa diz que é planetária e devastadora e o governo diz que de muito leve, vai passar triscando na economia brasileira. Aí, ficamos nos discursos bipolares convenientes. Faltam respaldo e respeito de ambas as instituições, para que possamos ter uma consciência verdadeira sobre tudo que nos permeia.

No dicionário da língua portuguesa Melhoramentos, a palavra crise é conceituada como: “período difícil na vida de uma pessoa ou de uma sociedade de cuja solução depende à volta a um estado normal; falta de alguma coisa em vasta escala.” Para a filósofa brasileira Nancy Mangabeira Unger, crise “é o momento onde algo se encontra confuso e é o momento do discernir, do decidir; é o momento do parar tudo para a decisão, para que possamos superar a crise, que é necessária.” Assim, acredito que as crises que nos aparecem, de forma tão fugaz, devem ser pensadas de forma mais crítica e lúcida. Talvez não exista nenhuma crise, exceto a crise governamental, que parece ser perpétua, e da esdrúxula imprensa. Porém acredito quer crise é o momento mais oportuno, como diz Nancy, para o discernir, para o decidir, afinal nossa inquietude é intrínseca a nossa alma, portanto crises há de existir tanto quanto a própria inquietude humana.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

V de Varlam


Por Caloan Walker


Minhas Bibliotecas
Varlam Chalámov
In: A Paixão Pelos Livros, 2004, 152 pp.
Editora Casa da Palavra



Em um livro rico em relatos de escritores e personalidades diversas ligadas aos livros de alguma forma, Chalámov deixa claro já no título que o seu se trata de um conto auto-biográfico; o que o destaca, contudo, é o frio seco da angústia que ele causa no leitor com sua história inter-carceres sobre como a única coisa mantendo-o aquecido na hipotérmica região soviética era o esporádico contato com os livros, o hábito literário, a esperança de conseguir angariar preciosos compêndios para formar sua onírica biblioteca particular num tempo de tolerância zero aos bibliófilos sob a ditadura stalinista.

Apesar de ter sido delatado às autoridades vigentes pelo próprio cunhado, pelo simples ato de ter adquirido uma coleção de livros considerados pelo aculturado “quase-parente” como “literatura suspeita”, Chalámov não perde tempo ruminando mágoas; pega então o leitor pelas mãos e o leva a Butírskaia, uma espécie de purgatório onde qualquer leitura era liberada para os detentos justamente por se tratar, muitas vezes, da última.

Passa-se quase uma década até que o autor tenha algum contato com os tão amados livros, eis que uma doença o livra do penoso trabalho mineiro na Sibéria e ele se vê frente a frente com A queda de Paris, de Erenburg. Após tanto tempo de abstinência textual, naturalmente seu cérebro o castiga pela absurda mas compreensível subserviência.

A forma como Chalámov narra esse primeiro reencontro (e, em partes, alguns outros ao longo do texto), ávido com seu instinto de auto-preservação e fomentação da vida intelectual e da sensibilidade inerente a essa, muito se assemelha em espírito a uma cena do filme V de Vingança (2005).

O longa do diretor James McTeigue conta a história de um sujeito meio “anti-herói” conhecido apenas por “Codinome V” (Hugo Weaving) que almeja reavivar na mente dos ingleses do século XXI o que representou o 05 de Novembro de 1605 no passado da Inglaterra – usando uma máscara de Guy Fawkes, símbolo-mor da Conspiração da Pólvora que falhou pela sua prisão, V pretende explodir o Palácio de Westminster para matar os representantes do governo ditatorial instaurado pela manipulação da opinião pública através da manjada tática do pânico (falsas epidemias e campanhas anti-terror). Todavia nesse processo V resgata Evey (Natalie Portman) das mãos dos Fingermen (polícia secreta) ao desrespeitar o toque de recolher e posteriormente quando ele invade uma emissora de TV para propagar suas idéias e denunciar as falácias do Parlamento para toda a população.

Evey, cujos pais foram ativistas políticos contra o governo, é declarada então inimiga do Estado ao se aliar com um “terrorista”, fato só entendido pela mesma ao acordar num ambiente estranho, com toneladas de livros em inúmeras prateleiras. Ela ouve os ideais de V e decide ajudá-lo, no entanto o medo da morte iminente fala mais alto e no meio de um dos planos ela foge.

A jovem é por fim detida após a morte de um amigo que a hospedava; encarcerada, é também torturada à la carte a fim de revelar às autoridades a identidade do terrorista mascarado, quando descobre numa fenda de sua cela pedaços de uma longa carta escrita diariamente em papel higiênico por uma homossexual vítima da tirania inglesa de então. Todos os dias Evey retornaria à cela após horas a fio de tortura, e a única coisa mantendo a sanidade da moça, que testemunhou o assassinato dos pais ativistas em sua própria casa ainda uma tenra criança, é cada palavra escrita num pedaço pequeno de papel higiênico.

Chalámov pode não ter tido vizinhos tão solidários assim na penitenciária, mas contou com a sorte do acaso mais de uma vez. Antes do contato com A queda de Paris, por exemplo, apareceu uma boa alma chamada Vladimir Mikháilovtch Smirnov, seu superior e ex-presidiário, que inclusive se arriscou ao lhe pôr a par, através de uma pilha de jornais, de um processo importante da época envolvendo Ríkov.

Enquanto muitos leriam os relatos de Chalámov como uma série de desventuras apenas, poucos poderiam entender que em realidade a sorte muitas vezes é irônica e beira a sordidez. Não fosse por uma doença, não teria ele passado pelo “Milagre de Erenburg”, tampouco teria ele chegado a um hospital de tratamento digno em Biélitchia, onde se encontrou com A juventude do rei Henrique IV, de Heinrich Mann, se uma enfermidade não o acometera.

É necessário perceber que a história da ligação de Chalámov com os livros (que definiu todo o enredo da sua vida) resume-se em uma palavra: resiliência. Não tivesse ele essa habilidade de acumular energia, notavelmente a energia mental, através da sede de leitura, certamente teria caído na leviandade e por conseqüência no conformismo.

E conformismo é a eutanásia dos intelectuais, das pessoas cultas; consiste em aceitar aqueles discursos mansos, recheados de falso humanismo e argumentos que assassinam debates, trocas de idéias, debates esses que ao morrerem nos ouvidos selados dos conformistas que buscam justificativas até no sobrenatural, se for possível, para – mesmo que inconscientemente – evitar mudanças, são escoados para as páginas de um bom livro.

A prisão é uma punição eficaz, ao menos deveria ser. Quando se é preso por arbitrariedade e se é sabido que nada pode ser feito para ser solto, nem mesmo ter seu caso julgado justamente, é necessário buscar refúgio em algo útil como a própria razão humana, a qual geralmente vem em forma literária. O que Chalámov e Evey buscavam nos textos não eram palavras prolixas ou clichés, mas a passionalidade racional do Homem, aquela presença intocável, virtual, de outrem, até em meio à hostilidade e a indiferença. É portanto admirável e intrigante a perseverança do ilustre autor russo. Chega a ser homérico batalhar contra a burrice dessa forma, quando até o clima é favorável ao tolhimento.

domingo, 14 de setembro de 2008

Mariana Aydar Lança Excelente Disco de Estréia

Por Renan Oliveira

Foto: Reprodução

“Quando eu canto é para aliviar o encanto e a fé em Deus”. Com essas palavras a belíssima voz da paulista Mariana Aydar abre o seu primeiro disco, Kavita 1, lançado pela Universal Music, que chega num momento em que as gravadoras sucateiam e comercializam a bem querer Vanessa da Mata e Maria Rita, que estão enchendo o saco, com excessivo marketing nas mídias; uma alternativa para se ouvir boa música.

Mariana não é uma cantora qualquer para colocar suas músicas em todas as rádios, transformá-las em tema de novela, ir aos domingos ao Faustão e depois virar hit na boca de cantores e bandas emergentes. Sua música tem um requinte sofisticado que não é para quaisquer ouvidos; só os mais apurados conseguem se emocionar ao ouvir Zé do Caroço, faixa cantada com Lecy Brandão, em momento de crise social e política em que vivemos, um verdadeiro desabafo de um novo Policarpo Quaresma.

Seu pai, Mario Manga, produtor musical e diretor de TV, lhe deu o respaldo necessário para gravar o que queria e mostrar uma certa autonomia artística, resultando em um disco sublime, uma nova forma de fazer música brasileira ao invés de ficar só gravando “canções-chiclete” com refrões repetitivos e chatos.

Mariana Aydar consegue trazer elementos musicais de raízes puramente brasileiras, o autêntico e bom samba é o carro chefe; nessa estética, elementos percussivos e eletrônicos também são notáveis, uma harmonia singular com a banda nos dá uma perfeição final. A faixa 09, Candomblé, revela seu gosto pela raiz histórica do samba, que começou com a negritude nos morros do Rio de Janeiro e nos leva, inevitavelmente, a lembrar de Clara Nunes.

Sem dúvidas a música brasileira eventualmente prestará reverências a essa menina que consegue fazer um trabalho autêntico, único, enquanto outras e outros ficam sob as conveniências das gravadoras que passam de mecenas a mercenárias.

Difícil mesmo é levar as músicas deste fecundo álbum a um maior público, já que vivemos em uma hegemonia nos quatro cantos da sociedade, inclusive na música. O monopólio cultural ainda persiste nessa sociedade tão frágil que é a nossa. Se a democracia política neste país é fantasiosa, quem dirá a democracia artística, onde todos deveriam poder mostrar seu trabalho e não ficar como está, onde uns são as bolas da vez nas rádios, revistas e programas de TV e outros marginalizados pela falta de oportunidade. O mal é querer levar a arte como produto comercial, pois se números de vendas significassem qualidade artística, até a Perla seria a melhor cantora do Brasil.

Kavita 1 surge e fica como um lembrete da eminente necessidade dessa democratização das artes, para que todos possam mostrar sua arte e Mariana Aydar inocular essa idéia de que é possível voltar a fazer boa música no Brasil.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Juventude falida, gerações perdidas

Por Renan Oliveira

Lamentável é ver como o capitalismo, nas entranhas da sociedade, é eficaz naquilo que se propõe. Uma juventude falida, a qual se encontra na sociedade brasileira, coloca todo o futuro da nação em uma grande crise de valores, comportamentos e posições ideológicas. Se pensávamos que Ditadura Militar acabou em 1985, estávamos enganados. Vivemos numas das mais cruéis e sangrentas ditaduras. A Ditadura do Consumo. Os jovens são reféns do consumo estridente que devora as mentes como traças em pano. Um jovem há quarenta anos estava lendo Marx, Sartre, Proust; hoje, se lêem algo é Harry Poter ou Paulo Coelho. Lêem?

A juventude contemporânea está preocupada com o corpo e os gozos, como cita o francês Charles Melman no seu livro “O Homem Sem Gravidade, Gozar a Qualquer Preço”. Preocupa-se muito com o imediatismo e os excessos. Coloca o prazer na frente do saber e a estética em detrimento da ética. Parecem loucos pelo celular; nunca vi tanta demência. Eu nisso tudo fico extremamente atônito, sem direção. Fácil é ser classificado e rotulado a bem querer por não seguir os clichezinhos da sociedade e ainda ser acusado por insanos.

O negócio é serio - as crianças brincam de ser gente grande já podendo ser tratadas como mercadorias pela Mattel; aprendem cedo a serem individualistas e consumistas. Fosse eu Deus, já fabricava as pessoas com Bluetooth para quando alguém quisesse amar era só ligar o troço e passar para o outro todo o amor; quando alguém sentir ódio só era pedir para o outro ligar o Bluetooth e pronto; fazer sexo então, nem se fala. Hoje tudo tem que ser tão rápido e mecânico que não duvido.

Acredito também que existe uma indústria, que, como diria Descartes, seria planejada pelo "coisa ruim" para enganar os entes. Essa indústria, entendo eu, é a publicidade, ajudando os entes como um “grande amigo” nas suas escolhas. Tudo do jeito que o diabo gosta. Querido seria Deus se eu estivesse enganado, mas penso que não estou. As pessoas têm a grande ilusão de que estão fazendo tudo o que querem, que ninguém interfere nas suas escolhas, nos seus comportamentos, que elas de fato escolhem o que bem entenderem sem ninguém se imiscuir. As pessoas estão realmente doentes. Creditam ao inexistente aquilo que não é real. Não sabendo o quê e quem comandam nossas vidas. É preciso usar escudo para não sermos devorados. Existe uma máquina que investe tudo para nos perturbar. Isso vai da televisão à política, da música à literatura, passando pelos conselhos de Edir Macedo e de Luciano Huck.

Enquanto o país sofre pelas mazelas sociais e a criminalidade em níveis insuportáveis, as pessoas elegem a "Mulher-Melancia". Paulo Maluf enche o rabo de dinheiro público, despreocupado, pois sabe que ainda será o deputado mais votado de São Paulo, qualquer probleminha ele diz “Eu nego!” e está tudo bem, de quebra ainda ganha quadros em programas de humor para as pessoas rirem da tragédia. Enquanto o shopping está cheio de alienígenas drogados a polícia matou alguns na favela. Enquanto os ricos estão comprando seus carros, crianças os esperam mais na frente com a mão estendida. Será que nosso cérebro está podre? Porque será que ficamos assim? Ficamos?

Acredito que os excessos da sociedade da tecnologia excessiva, onde tudo tem de ser fácil e rápido, as mentes agruras estão ficando confusas. Roubaram não só a Razão, mas também os sentidos. Uma espécie de loucura coletiva imperceptível, pois acham que tudo isso é normal, afinal é assim praticado por todos. Nesse ambiente qualquer um que venha a ter posições contrárias ao comum é excluído, ridicularizado e, este sim, é chamado de louco.

Esdrúxulos comportamentos nos levarão a pensar as transformações da sociedade sob o advento da pós-modernidade. Será que esse processo é realmente profícuo para a sociedade? Será que realmente isso nos fará evoluir? Será que temos consciência do que fazemos? E a juventude, cadê? Se toda juventude viveu de utopias, esta também deve ter alguma. Mas qual será a utopia desta juventude transviada? Uma calça jeans da Osklen ou um autógrafo da Madonna? Uma BMW ou um Visa International?

Contudo, prefiro pensar sobre isso ouvindo meu LP de João Gilberto e fumando meu charuto Havana, assim minha mente conduzirá meu espírito em busca das possíveis respostas, enquanto os outros se olham no espelho e vão dormir pedindo a Deus uma vaga no céu [pelo novo sistema de cotas], mas o diabo os aguarda com as senhas e passaportes sorrindo como Silvio Santos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O Poder Idiótico

Por Caloan Walker


“‘Cada um no seu quadrado, cada um no seu quadrado’, é isso, meus queridos alunos, o que aquele filósofo grego muito doido quis dizer e é essa a base para a nossa filosofia moderna”. Eis que reverbera o grande ensinamento da atual sociedade, palavras proferidas por um professor que personifica momentaneamente toda a sabedoria de uma sociedade idiocrática, provavelmente em um futuro próximo, da qual o filho do leitor terá o privilégio de participar.

A Idiocracia já é uma realidade em uma certa parte da sociedade ocidental. Ela tem fundamentos lindíssimos, inabaláveis, ela seduz e vicia as mentes daqueles que só se preocupam com o mínimo de tudo e que tomam pragmatismo por preguiça estruturada, a preguiça de sair da inércia confortável da fórmula sofá-TV ordinária.

O primeiro – e talvez único – fundamento real da Idiocracia é a ilusória sensação de liberdade trazida pelos principais meios de comunicação. Numa estrutura neo-capitalista é ensinado que o padrão deste lado do mundo é o melhor pelas escolhas proporcionadas. E é instigando aquele sentimento de “eu assisto o que eu quiser e o pobrema (sic) é meu” que se alimenta o regime idiocrático. Todos têm o direito de ver o que quiser e querer o que quiser – exceto quando esses direitos referem-se a condições básicas de vida, esses são chatos e políticos e acabam com a diversão, e por Deus, ninguém jamais iria querer isso.

E diversão é a palavra-chave nisso tudo. Esse “tsunami idiotizante” que assolou a geração de jovens a qual então julgavam não politizada e compostas por rebeldes sem causa, essa adoração ao tosco, ao bizarro vazio, teve como cláusula pétrea a diversão.

Dos EUA importamos o Jackass, programa em que um ser com admirável desprezo pelos limites do ridículo realizava experimentos nele mesmo e em alguns de seus amigos. “Experimentos científicos?” questiona o leitor que ainda pode ler e assimilar informações. Óbvio que não, é tudo pela risada. Vários adolescentes que queriam impressionar o resto do bando se empenhavam em aprender cada truque, muitos foram feridos e alguns mortos, mas morte é assunto sério e desfoca o aspecto principal deste texto. Além disso, enquanto houver um belo chute no saco a cada fim de semana, haverá gargalhadas banhando a dor de um sujeito que poderá nunca mais ter filhos.

Alguns podem até questionar que essa nova epidemia não é um mal completo, afinal nunca se viu tantos anões, travestis, gordinhas, etc., aparecerem na TV para assegurar a dose diária de risos sádicos do telespectador. Afinal, tem coisa mais engraçada que um anãozinho dançando qualquer coisa, especialmente sobre um quadrado? Essas “minorias” serão os coringas daqui para frente, afinal suas formas não se encaixam nos moldes sensuais propagados nos nossos vestíbulos invisíveis.

Sensualidade e erotização são a mesma coisa. Erotizem tudo, desde as crianças aos idosos. Tudo tem que ser e será vendido. Tudo isso é parte do pacote. Há agora cerca de 18 anos desde que o erótico era velado nas músicas, como no pagode. Não, oh não, agora é tudo melhor, tudo mais mastigado e escancarado para que não se perca tempo desvendando metáforas, analogias. Agora a lei é que se o nome da moça for Marieta, imediatamente ponha a mão nas genitálias da mesma.

De agora em diante, pense duas vezes antes de colocar algum nome na sua filha cuja terminação seja “eta” ou “ota”. E como a fascinação brasileira por nádegas é declarada, tome cuidado se pretende colocar o nome da sua filha Marilu, ou ela poderá nunca mais defecar na vida com tantas mãos atrás. Talvez considerem chamá-la de Raimunda para suavizar os danos.

Por outro lado, os pais da “já tão nova e já ninfeta” Raimunda poderiam ficar desprocupados caso esta honre a rima do nome, há sempre uma vaga para moças apetitosas em reality shows e propagandas de cerveja.

“Ah, mas o público-alvo dos fabricantes de cerveja é o homem, tem que ter mulheres mostrando o útero nas propagandas”, ecoa o argumento do fulano – ou fulana – esperto, “e os homens respondem mais a essa linguagem, é a linguagem do povão”.

De fato, ninguém venderia cerveja citando Platão, no entanto faz-se presente a partir deste ponto um outro mandamento idiossincrático do Novo Regime: o racionamento de neurônios. As pessoas ainda acreditam que o cérebro delas é como um disco rígido de computador ou um pen drive, com um limite de informações que podem caber lá, portanto adiciona-se à fórmula a “autofágica” discussão “faz-se assim porque o povão não tem educação” e “o povão não tem educação porque tudo se faz assim”.

A Primus não virou febre com um jingle sensacional não-pornográfico? A Nobel não está com uma propaganda muito bem-feita sem vulgaridade? O whisky Johnnie Walker não aparece sempre com uma publicidade perfeita? Tudo bem, a Primus pode não ter durado tanto nos comerciais, mas com certeza marcou uma época. E até o povão fica impressionado com as propagandas do Johnnie Walker, pergunte qual marca de whisky eles conhecem. Não se vê o Johnnie Walker tentando lançar a Marieta Walker para vender seu produto aos brasileiros.

A Idiocracia é real e busca suplantar qualquer império. Tem escudos blindados como a “liberdade de expressão”, a “variedade de escolhas” e o “racionamento de neurônios”. O que os futuros responsáveis pelos principais meios de comunicação podem fazer para dar um limite a ela ainda é algo incerto. A única saída para aqueles que almejam a salvação é sentar sua “Raimunda” e estudar até seu “Marilu” doer, buscar inovação e sair dos clichés, etc, antes que ela o pegue, caro leitor, e lhe dê um “créu” na velocidade de 250km/h.

sábado, 9 de agosto de 2008

O Fim da Esquerda no Brasil sob Análise Filosófica

Por Renan Oliveira

A pós-modernidade, que tanto lutamos para chegar a tal patamar, desde as idéias progressistas de Comte, nos entrega em simplesmente uma autêntica crise profunda nas instituições da sociedade, principalmente na esfera política. A experiência empírica e histórica levar-nos-á a compreender que a crise da sociedade tem como arcabouço a crise política. A direita tem como praxe um slogan ordinário, o qual todos têm de cor: “as concepções políticas de esquerda são ultrapassadas, utópicas”. Mas sem querer adotar palavras de ninguém, o que parece é que a esquerda, no Brasil, se transformou em direita travestida sob a baliza das coerentes idéias de Marx. Marx poderia ter sido um homem sonhador demais, afinal suas teorias nunca deram certo nos regimes aplicados da filosofia comunista, vejamos a Rússia e a Polônia, por exemplo. Todavia, a esquerda brasileira vestiu os trajes sujos da burguesia e foi para o salão dançar valsa. Decepcionante é ver a canalhice dos partidos dizendo que são comunistas ou socialistas. Pelo menos no Brasil o sonho já acabou.

Para aqueles que pensam que estamos sendo governados por um partido de esquerda, é bom acordar e ver que o PT já esqueceu todo aquele discurso de marxistas rebeldes dos anos 80 para se juntar aos reacionários da direita. O governo Lula poderia ser mesmo uma revolução, mas fica sob políticas compensatórias e paliativas, economia aberta para o capital estrangeiro (quem diria, o PT fazendo isso!) e sob a baliza dos estadunidenses.

Aqueles militantes, que tanto lutaram na ditadura, hoje estão em cargos do governo, usufruindo o que o poder lhes oferece. No Brasil, a esquerda se mostrou promíscua e ordinária ao se render ao jogo do sistema, onde se dança o que se toca.

Lamentavelmente, o fim da esquerda no Brasil - a qual talvez nunca tenha existido - remete-nos a pensar que falta de coerência nas idéias sob as influências dos anjos ruins revela, talvez, a veracidade da teoria de Rousseau. Discutir as formas e ideologias seria inútil se não compreendermos primeiro o próprio homem, que é quem crias essas ideologias. Talvez o homem deva ser entendido, qual realmente é sua natureza, para a partir daí analisar as construções simbólicas do próprio homem. Exemplo análogo é a inutilidade da discussão sobre a existência de Deus. A razão humana prova sua inexistência.

Quando se tenta analisar as formas com que os homens se relacionam com o poder, a política, devemos nos lembrar que nem na pólis da Grécia sua estrutura foi realmente plena. É necessário uma visão social e histórica dos regimes nos quais temos experiência.

A esquerda no Brasil não pode ser considerada incoerente pelo fato de que suas concepções e idéias estão estruturadas pelo homem, nada mais. Foi justamente isso o que Rousseau faltou explicar: afinal o que realmente é a sociedade? Uma entidade que o diabo ou Deus governa e à qual ficamos subordinados. O que Rousseau não deixou claro é que a sociedade é o próprio homem e não o contrario.

Contudo penso que as idéias de Comte não foram muito profícuas em suas experiências, principalmente na contemporaneidade. O falso progresso tem nos levado à loucura do caos e ao extremo consumismo, é justamente isso que a esquerda brasileira utilizou para ir ao poder. Sua rebeldia contra o capitalismo acabou em pouco tempo. Claro que a esperança acabou! O sonho da revolução no país acabou quando a esquerda foi ao poder, jogando ao léu o senso humano da igualdade.