segunda-feira, 15 de setembro de 2008

V de Varlam


Por Caloan Walker


Minhas Bibliotecas
Varlam Chalámov
In: A Paixão Pelos Livros, 2004, 152 pp.
Editora Casa da Palavra



Em um livro rico em relatos de escritores e personalidades diversas ligadas aos livros de alguma forma, Chalámov deixa claro já no título que o seu se trata de um conto auto-biográfico; o que o destaca, contudo, é o frio seco da angústia que ele causa no leitor com sua história inter-carceres sobre como a única coisa mantendo-o aquecido na hipotérmica região soviética era o esporádico contato com os livros, o hábito literário, a esperança de conseguir angariar preciosos compêndios para formar sua onírica biblioteca particular num tempo de tolerância zero aos bibliófilos sob a ditadura stalinista.

Apesar de ter sido delatado às autoridades vigentes pelo próprio cunhado, pelo simples ato de ter adquirido uma coleção de livros considerados pelo aculturado “quase-parente” como “literatura suspeita”, Chalámov não perde tempo ruminando mágoas; pega então o leitor pelas mãos e o leva a Butírskaia, uma espécie de purgatório onde qualquer leitura era liberada para os detentos justamente por se tratar, muitas vezes, da última.

Passa-se quase uma década até que o autor tenha algum contato com os tão amados livros, eis que uma doença o livra do penoso trabalho mineiro na Sibéria e ele se vê frente a frente com A queda de Paris, de Erenburg. Após tanto tempo de abstinência textual, naturalmente seu cérebro o castiga pela absurda mas compreensível subserviência.

A forma como Chalámov narra esse primeiro reencontro (e, em partes, alguns outros ao longo do texto), ávido com seu instinto de auto-preservação e fomentação da vida intelectual e da sensibilidade inerente a essa, muito se assemelha em espírito a uma cena do filme V de Vingança (2005).

O longa do diretor James McTeigue conta a história de um sujeito meio “anti-herói” conhecido apenas por “Codinome V” (Hugo Weaving) que almeja reavivar na mente dos ingleses do século XXI o que representou o 05 de Novembro de 1605 no passado da Inglaterra – usando uma máscara de Guy Fawkes, símbolo-mor da Conspiração da Pólvora que falhou pela sua prisão, V pretende explodir o Palácio de Westminster para matar os representantes do governo ditatorial instaurado pela manipulação da opinião pública através da manjada tática do pânico (falsas epidemias e campanhas anti-terror). Todavia nesse processo V resgata Evey (Natalie Portman) das mãos dos Fingermen (polícia secreta) ao desrespeitar o toque de recolher e posteriormente quando ele invade uma emissora de TV para propagar suas idéias e denunciar as falácias do Parlamento para toda a população.

Evey, cujos pais foram ativistas políticos contra o governo, é declarada então inimiga do Estado ao se aliar com um “terrorista”, fato só entendido pela mesma ao acordar num ambiente estranho, com toneladas de livros em inúmeras prateleiras. Ela ouve os ideais de V e decide ajudá-lo, no entanto o medo da morte iminente fala mais alto e no meio de um dos planos ela foge.

A jovem é por fim detida após a morte de um amigo que a hospedava; encarcerada, é também torturada à la carte a fim de revelar às autoridades a identidade do terrorista mascarado, quando descobre numa fenda de sua cela pedaços de uma longa carta escrita diariamente em papel higiênico por uma homossexual vítima da tirania inglesa de então. Todos os dias Evey retornaria à cela após horas a fio de tortura, e a única coisa mantendo a sanidade da moça, que testemunhou o assassinato dos pais ativistas em sua própria casa ainda uma tenra criança, é cada palavra escrita num pedaço pequeno de papel higiênico.

Chalámov pode não ter tido vizinhos tão solidários assim na penitenciária, mas contou com a sorte do acaso mais de uma vez. Antes do contato com A queda de Paris, por exemplo, apareceu uma boa alma chamada Vladimir Mikháilovtch Smirnov, seu superior e ex-presidiário, que inclusive se arriscou ao lhe pôr a par, através de uma pilha de jornais, de um processo importante da época envolvendo Ríkov.

Enquanto muitos leriam os relatos de Chalámov como uma série de desventuras apenas, poucos poderiam entender que em realidade a sorte muitas vezes é irônica e beira a sordidez. Não fosse por uma doença, não teria ele passado pelo “Milagre de Erenburg”, tampouco teria ele chegado a um hospital de tratamento digno em Biélitchia, onde se encontrou com A juventude do rei Henrique IV, de Heinrich Mann, se uma enfermidade não o acometera.

É necessário perceber que a história da ligação de Chalámov com os livros (que definiu todo o enredo da sua vida) resume-se em uma palavra: resiliência. Não tivesse ele essa habilidade de acumular energia, notavelmente a energia mental, através da sede de leitura, certamente teria caído na leviandade e por conseqüência no conformismo.

E conformismo é a eutanásia dos intelectuais, das pessoas cultas; consiste em aceitar aqueles discursos mansos, recheados de falso humanismo e argumentos que assassinam debates, trocas de idéias, debates esses que ao morrerem nos ouvidos selados dos conformistas que buscam justificativas até no sobrenatural, se for possível, para – mesmo que inconscientemente – evitar mudanças, são escoados para as páginas de um bom livro.

A prisão é uma punição eficaz, ao menos deveria ser. Quando se é preso por arbitrariedade e se é sabido que nada pode ser feito para ser solto, nem mesmo ter seu caso julgado justamente, é necessário buscar refúgio em algo útil como a própria razão humana, a qual geralmente vem em forma literária. O que Chalámov e Evey buscavam nos textos não eram palavras prolixas ou clichés, mas a passionalidade racional do Homem, aquela presença intocável, virtual, de outrem, até em meio à hostilidade e a indiferença. É portanto admirável e intrigante a perseverança do ilustre autor russo. Chega a ser homérico batalhar contra a burrice dessa forma, quando até o clima é favorável ao tolhimento.

domingo, 14 de setembro de 2008

Mariana Aydar Lança Excelente Disco de Estréia

Por Renan Oliveira

Foto: Reprodução

“Quando eu canto é para aliviar o encanto e a fé em Deus”. Com essas palavras a belíssima voz da paulista Mariana Aydar abre o seu primeiro disco, Kavita 1, lançado pela Universal Music, que chega num momento em que as gravadoras sucateiam e comercializam a bem querer Vanessa da Mata e Maria Rita, que estão enchendo o saco, com excessivo marketing nas mídias; uma alternativa para se ouvir boa música.

Mariana não é uma cantora qualquer para colocar suas músicas em todas as rádios, transformá-las em tema de novela, ir aos domingos ao Faustão e depois virar hit na boca de cantores e bandas emergentes. Sua música tem um requinte sofisticado que não é para quaisquer ouvidos; só os mais apurados conseguem se emocionar ao ouvir Zé do Caroço, faixa cantada com Lecy Brandão, em momento de crise social e política em que vivemos, um verdadeiro desabafo de um novo Policarpo Quaresma.

Seu pai, Mario Manga, produtor musical e diretor de TV, lhe deu o respaldo necessário para gravar o que queria e mostrar uma certa autonomia artística, resultando em um disco sublime, uma nova forma de fazer música brasileira ao invés de ficar só gravando “canções-chiclete” com refrões repetitivos e chatos.

Mariana Aydar consegue trazer elementos musicais de raízes puramente brasileiras, o autêntico e bom samba é o carro chefe; nessa estética, elementos percussivos e eletrônicos também são notáveis, uma harmonia singular com a banda nos dá uma perfeição final. A faixa 09, Candomblé, revela seu gosto pela raiz histórica do samba, que começou com a negritude nos morros do Rio de Janeiro e nos leva, inevitavelmente, a lembrar de Clara Nunes.

Sem dúvidas a música brasileira eventualmente prestará reverências a essa menina que consegue fazer um trabalho autêntico, único, enquanto outras e outros ficam sob as conveniências das gravadoras que passam de mecenas a mercenárias.

Difícil mesmo é levar as músicas deste fecundo álbum a um maior público, já que vivemos em uma hegemonia nos quatro cantos da sociedade, inclusive na música. O monopólio cultural ainda persiste nessa sociedade tão frágil que é a nossa. Se a democracia política neste país é fantasiosa, quem dirá a democracia artística, onde todos deveriam poder mostrar seu trabalho e não ficar como está, onde uns são as bolas da vez nas rádios, revistas e programas de TV e outros marginalizados pela falta de oportunidade. O mal é querer levar a arte como produto comercial, pois se números de vendas significassem qualidade artística, até a Perla seria a melhor cantora do Brasil.

Kavita 1 surge e fica como um lembrete da eminente necessidade dessa democratização das artes, para que todos possam mostrar sua arte e Mariana Aydar inocular essa idéia de que é possível voltar a fazer boa música no Brasil.