quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Juventude falida, gerações perdidas

Por Renan Oliveira

Lamentável é ver como o capitalismo, nas entranhas da sociedade, é eficaz naquilo que se propõe. Uma juventude falida, a qual se encontra na sociedade brasileira, coloca todo o futuro da nação em uma grande crise de valores, comportamentos e posições ideológicas. Se pensávamos que Ditadura Militar acabou em 1985, estávamos enganados. Vivemos numas das mais cruéis e sangrentas ditaduras. A Ditadura do Consumo. Os jovens são reféns do consumo estridente que devora as mentes como traças em pano. Um jovem há quarenta anos estava lendo Marx, Sartre, Proust; hoje, se lêem algo é Harry Poter ou Paulo Coelho. Lêem?

A juventude contemporânea está preocupada com o corpo e os gozos, como cita o francês Charles Melman no seu livro “O Homem Sem Gravidade, Gozar a Qualquer Preço”. Preocupa-se muito com o imediatismo e os excessos. Coloca o prazer na frente do saber e a estética em detrimento da ética. Parecem loucos pelo celular; nunca vi tanta demência. Eu nisso tudo fico extremamente atônito, sem direção. Fácil é ser classificado e rotulado a bem querer por não seguir os clichezinhos da sociedade e ainda ser acusado por insanos.

O negócio é serio - as crianças brincam de ser gente grande já podendo ser tratadas como mercadorias pela Mattel; aprendem cedo a serem individualistas e consumistas. Fosse eu Deus, já fabricava as pessoas com Bluetooth para quando alguém quisesse amar era só ligar o troço e passar para o outro todo o amor; quando alguém sentir ódio só era pedir para o outro ligar o Bluetooth e pronto; fazer sexo então, nem se fala. Hoje tudo tem que ser tão rápido e mecânico que não duvido.

Acredito também que existe uma indústria, que, como diria Descartes, seria planejada pelo "coisa ruim" para enganar os entes. Essa indústria, entendo eu, é a publicidade, ajudando os entes como um “grande amigo” nas suas escolhas. Tudo do jeito que o diabo gosta. Querido seria Deus se eu estivesse enganado, mas penso que não estou. As pessoas têm a grande ilusão de que estão fazendo tudo o que querem, que ninguém interfere nas suas escolhas, nos seus comportamentos, que elas de fato escolhem o que bem entenderem sem ninguém se imiscuir. As pessoas estão realmente doentes. Creditam ao inexistente aquilo que não é real. Não sabendo o quê e quem comandam nossas vidas. É preciso usar escudo para não sermos devorados. Existe uma máquina que investe tudo para nos perturbar. Isso vai da televisão à política, da música à literatura, passando pelos conselhos de Edir Macedo e de Luciano Huck.

Enquanto o país sofre pelas mazelas sociais e a criminalidade em níveis insuportáveis, as pessoas elegem a "Mulher-Melancia". Paulo Maluf enche o rabo de dinheiro público, despreocupado, pois sabe que ainda será o deputado mais votado de São Paulo, qualquer probleminha ele diz “Eu nego!” e está tudo bem, de quebra ainda ganha quadros em programas de humor para as pessoas rirem da tragédia. Enquanto o shopping está cheio de alienígenas drogados a polícia matou alguns na favela. Enquanto os ricos estão comprando seus carros, crianças os esperam mais na frente com a mão estendida. Será que nosso cérebro está podre? Porque será que ficamos assim? Ficamos?

Acredito que os excessos da sociedade da tecnologia excessiva, onde tudo tem de ser fácil e rápido, as mentes agruras estão ficando confusas. Roubaram não só a Razão, mas também os sentidos. Uma espécie de loucura coletiva imperceptível, pois acham que tudo isso é normal, afinal é assim praticado por todos. Nesse ambiente qualquer um que venha a ter posições contrárias ao comum é excluído, ridicularizado e, este sim, é chamado de louco.

Esdrúxulos comportamentos nos levarão a pensar as transformações da sociedade sob o advento da pós-modernidade. Será que esse processo é realmente profícuo para a sociedade? Será que realmente isso nos fará evoluir? Será que temos consciência do que fazemos? E a juventude, cadê? Se toda juventude viveu de utopias, esta também deve ter alguma. Mas qual será a utopia desta juventude transviada? Uma calça jeans da Osklen ou um autógrafo da Madonna? Uma BMW ou um Visa International?

Contudo, prefiro pensar sobre isso ouvindo meu LP de João Gilberto e fumando meu charuto Havana, assim minha mente conduzirá meu espírito em busca das possíveis respostas, enquanto os outros se olham no espelho e vão dormir pedindo a Deus uma vaga no céu [pelo novo sistema de cotas], mas o diabo os aguarda com as senhas e passaportes sorrindo como Silvio Santos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O Poder Idiótico

Por Caloan Walker


“‘Cada um no seu quadrado, cada um no seu quadrado’, é isso, meus queridos alunos, o que aquele filósofo grego muito doido quis dizer e é essa a base para a nossa filosofia moderna”. Eis que reverbera o grande ensinamento da atual sociedade, palavras proferidas por um professor que personifica momentaneamente toda a sabedoria de uma sociedade idiocrática, provavelmente em um futuro próximo, da qual o filho do leitor terá o privilégio de participar.

A Idiocracia já é uma realidade em uma certa parte da sociedade ocidental. Ela tem fundamentos lindíssimos, inabaláveis, ela seduz e vicia as mentes daqueles que só se preocupam com o mínimo de tudo e que tomam pragmatismo por preguiça estruturada, a preguiça de sair da inércia confortável da fórmula sofá-TV ordinária.

O primeiro – e talvez único – fundamento real da Idiocracia é a ilusória sensação de liberdade trazida pelos principais meios de comunicação. Numa estrutura neo-capitalista é ensinado que o padrão deste lado do mundo é o melhor pelas escolhas proporcionadas. E é instigando aquele sentimento de “eu assisto o que eu quiser e o pobrema (sic) é meu” que se alimenta o regime idiocrático. Todos têm o direito de ver o que quiser e querer o que quiser – exceto quando esses direitos referem-se a condições básicas de vida, esses são chatos e políticos e acabam com a diversão, e por Deus, ninguém jamais iria querer isso.

E diversão é a palavra-chave nisso tudo. Esse “tsunami idiotizante” que assolou a geração de jovens a qual então julgavam não politizada e compostas por rebeldes sem causa, essa adoração ao tosco, ao bizarro vazio, teve como cláusula pétrea a diversão.

Dos EUA importamos o Jackass, programa em que um ser com admirável desprezo pelos limites do ridículo realizava experimentos nele mesmo e em alguns de seus amigos. “Experimentos científicos?” questiona o leitor que ainda pode ler e assimilar informações. Óbvio que não, é tudo pela risada. Vários adolescentes que queriam impressionar o resto do bando se empenhavam em aprender cada truque, muitos foram feridos e alguns mortos, mas morte é assunto sério e desfoca o aspecto principal deste texto. Além disso, enquanto houver um belo chute no saco a cada fim de semana, haverá gargalhadas banhando a dor de um sujeito que poderá nunca mais ter filhos.

Alguns podem até questionar que essa nova epidemia não é um mal completo, afinal nunca se viu tantos anões, travestis, gordinhas, etc., aparecerem na TV para assegurar a dose diária de risos sádicos do telespectador. Afinal, tem coisa mais engraçada que um anãozinho dançando qualquer coisa, especialmente sobre um quadrado? Essas “minorias” serão os coringas daqui para frente, afinal suas formas não se encaixam nos moldes sensuais propagados nos nossos vestíbulos invisíveis.

Sensualidade e erotização são a mesma coisa. Erotizem tudo, desde as crianças aos idosos. Tudo tem que ser e será vendido. Tudo isso é parte do pacote. Há agora cerca de 18 anos desde que o erótico era velado nas músicas, como no pagode. Não, oh não, agora é tudo melhor, tudo mais mastigado e escancarado para que não se perca tempo desvendando metáforas, analogias. Agora a lei é que se o nome da moça for Marieta, imediatamente ponha a mão nas genitálias da mesma.

De agora em diante, pense duas vezes antes de colocar algum nome na sua filha cuja terminação seja “eta” ou “ota”. E como a fascinação brasileira por nádegas é declarada, tome cuidado se pretende colocar o nome da sua filha Marilu, ou ela poderá nunca mais defecar na vida com tantas mãos atrás. Talvez considerem chamá-la de Raimunda para suavizar os danos.

Por outro lado, os pais da “já tão nova e já ninfeta” Raimunda poderiam ficar desprocupados caso esta honre a rima do nome, há sempre uma vaga para moças apetitosas em reality shows e propagandas de cerveja.

“Ah, mas o público-alvo dos fabricantes de cerveja é o homem, tem que ter mulheres mostrando o útero nas propagandas”, ecoa o argumento do fulano – ou fulana – esperto, “e os homens respondem mais a essa linguagem, é a linguagem do povão”.

De fato, ninguém venderia cerveja citando Platão, no entanto faz-se presente a partir deste ponto um outro mandamento idiossincrático do Novo Regime: o racionamento de neurônios. As pessoas ainda acreditam que o cérebro delas é como um disco rígido de computador ou um pen drive, com um limite de informações que podem caber lá, portanto adiciona-se à fórmula a “autofágica” discussão “faz-se assim porque o povão não tem educação” e “o povão não tem educação porque tudo se faz assim”.

A Primus não virou febre com um jingle sensacional não-pornográfico? A Nobel não está com uma propaganda muito bem-feita sem vulgaridade? O whisky Johnnie Walker não aparece sempre com uma publicidade perfeita? Tudo bem, a Primus pode não ter durado tanto nos comerciais, mas com certeza marcou uma época. E até o povão fica impressionado com as propagandas do Johnnie Walker, pergunte qual marca de whisky eles conhecem. Não se vê o Johnnie Walker tentando lançar a Marieta Walker para vender seu produto aos brasileiros.

A Idiocracia é real e busca suplantar qualquer império. Tem escudos blindados como a “liberdade de expressão”, a “variedade de escolhas” e o “racionamento de neurônios”. O que os futuros responsáveis pelos principais meios de comunicação podem fazer para dar um limite a ela ainda é algo incerto. A única saída para aqueles que almejam a salvação é sentar sua “Raimunda” e estudar até seu “Marilu” doer, buscar inovação e sair dos clichés, etc, antes que ela o pegue, caro leitor, e lhe dê um “créu” na velocidade de 250km/h.

sábado, 9 de agosto de 2008

O Fim da Esquerda no Brasil sob Análise Filosófica

Por Renan Oliveira

A pós-modernidade, que tanto lutamos para chegar a tal patamar, desde as idéias progressistas de Comte, nos entrega em simplesmente uma autêntica crise profunda nas instituições da sociedade, principalmente na esfera política. A experiência empírica e histórica levar-nos-á a compreender que a crise da sociedade tem como arcabouço a crise política. A direita tem como praxe um slogan ordinário, o qual todos têm de cor: “as concepções políticas de esquerda são ultrapassadas, utópicas”. Mas sem querer adotar palavras de ninguém, o que parece é que a esquerda, no Brasil, se transformou em direita travestida sob a baliza das coerentes idéias de Marx. Marx poderia ter sido um homem sonhador demais, afinal suas teorias nunca deram certo nos regimes aplicados da filosofia comunista, vejamos a Rússia e a Polônia, por exemplo. Todavia, a esquerda brasileira vestiu os trajes sujos da burguesia e foi para o salão dançar valsa. Decepcionante é ver a canalhice dos partidos dizendo que são comunistas ou socialistas. Pelo menos no Brasil o sonho já acabou.

Para aqueles que pensam que estamos sendo governados por um partido de esquerda, é bom acordar e ver que o PT já esqueceu todo aquele discurso de marxistas rebeldes dos anos 80 para se juntar aos reacionários da direita. O governo Lula poderia ser mesmo uma revolução, mas fica sob políticas compensatórias e paliativas, economia aberta para o capital estrangeiro (quem diria, o PT fazendo isso!) e sob a baliza dos estadunidenses.

Aqueles militantes, que tanto lutaram na ditadura, hoje estão em cargos do governo, usufruindo o que o poder lhes oferece. No Brasil, a esquerda se mostrou promíscua e ordinária ao se render ao jogo do sistema, onde se dança o que se toca.

Lamentavelmente, o fim da esquerda no Brasil - a qual talvez nunca tenha existido - remete-nos a pensar que falta de coerência nas idéias sob as influências dos anjos ruins revela, talvez, a veracidade da teoria de Rousseau. Discutir as formas e ideologias seria inútil se não compreendermos primeiro o próprio homem, que é quem crias essas ideologias. Talvez o homem deva ser entendido, qual realmente é sua natureza, para a partir daí analisar as construções simbólicas do próprio homem. Exemplo análogo é a inutilidade da discussão sobre a existência de Deus. A razão humana prova sua inexistência.

Quando se tenta analisar as formas com que os homens se relacionam com o poder, a política, devemos nos lembrar que nem na pólis da Grécia sua estrutura foi realmente plena. É necessário uma visão social e histórica dos regimes nos quais temos experiência.

A esquerda no Brasil não pode ser considerada incoerente pelo fato de que suas concepções e idéias estão estruturadas pelo homem, nada mais. Foi justamente isso o que Rousseau faltou explicar: afinal o que realmente é a sociedade? Uma entidade que o diabo ou Deus governa e à qual ficamos subordinados. O que Rousseau não deixou claro é que a sociedade é o próprio homem e não o contrario.

Contudo penso que as idéias de Comte não foram muito profícuas em suas experiências, principalmente na contemporaneidade. O falso progresso tem nos levado à loucura do caos e ao extremo consumismo, é justamente isso que a esquerda brasileira utilizou para ir ao poder. Sua rebeldia contra o capitalismo acabou em pouco tempo. Claro que a esperança acabou! O sonho da revolução no país acabou quando a esquerda foi ao poder, jogando ao léu o senso humano da igualdade.