domingo, 14 de setembro de 2008

Mariana Aydar Lança Excelente Disco de Estréia

Por Renan Oliveira

Foto: Reprodução

“Quando eu canto é para aliviar o encanto e a fé em Deus”. Com essas palavras a belíssima voz da paulista Mariana Aydar abre o seu primeiro disco, Kavita 1, lançado pela Universal Music, que chega num momento em que as gravadoras sucateiam e comercializam a bem querer Vanessa da Mata e Maria Rita, que estão enchendo o saco, com excessivo marketing nas mídias; uma alternativa para se ouvir boa música.

Mariana não é uma cantora qualquer para colocar suas músicas em todas as rádios, transformá-las em tema de novela, ir aos domingos ao Faustão e depois virar hit na boca de cantores e bandas emergentes. Sua música tem um requinte sofisticado que não é para quaisquer ouvidos; só os mais apurados conseguem se emocionar ao ouvir Zé do Caroço, faixa cantada com Lecy Brandão, em momento de crise social e política em que vivemos, um verdadeiro desabafo de um novo Policarpo Quaresma.

Seu pai, Mario Manga, produtor musical e diretor de TV, lhe deu o respaldo necessário para gravar o que queria e mostrar uma certa autonomia artística, resultando em um disco sublime, uma nova forma de fazer música brasileira ao invés de ficar só gravando “canções-chiclete” com refrões repetitivos e chatos.

Mariana Aydar consegue trazer elementos musicais de raízes puramente brasileiras, o autêntico e bom samba é o carro chefe; nessa estética, elementos percussivos e eletrônicos também são notáveis, uma harmonia singular com a banda nos dá uma perfeição final. A faixa 09, Candomblé, revela seu gosto pela raiz histórica do samba, que começou com a negritude nos morros do Rio de Janeiro e nos leva, inevitavelmente, a lembrar de Clara Nunes.

Sem dúvidas a música brasileira eventualmente prestará reverências a essa menina que consegue fazer um trabalho autêntico, único, enquanto outras e outros ficam sob as conveniências das gravadoras que passam de mecenas a mercenárias.

Difícil mesmo é levar as músicas deste fecundo álbum a um maior público, já que vivemos em uma hegemonia nos quatro cantos da sociedade, inclusive na música. O monopólio cultural ainda persiste nessa sociedade tão frágil que é a nossa. Se a democracia política neste país é fantasiosa, quem dirá a democracia artística, onde todos deveriam poder mostrar seu trabalho e não ficar como está, onde uns são as bolas da vez nas rádios, revistas e programas de TV e outros marginalizados pela falta de oportunidade. O mal é querer levar a arte como produto comercial, pois se números de vendas significassem qualidade artística, até a Perla seria a melhor cantora do Brasil.

Kavita 1 surge e fica como um lembrete da eminente necessidade dessa democratização das artes, para que todos possam mostrar sua arte e Mariana Aydar inocular essa idéia de que é possível voltar a fazer boa música no Brasil.

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