quinta-feira, 6 de maio de 2010

Raquel de Queiroz: expoente da literatura sertaneja e das novas narrativas no Brasil

Por Renan Oliveira


Mulher e nordestina. Raquel de Queiroz tinha duas características para ficar à margem de qualquer movimento intelectual e pioneiro no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, se não fosse um detalhe: foi ela a pioneira. Esse fato tem uma dimensão de maior importância quando esse espaço é na literatura, tradicionalmente dominado por escritores, ainda com suas narrativas europeizadas, onde as raízes do Brasil nordestino praticamente inexistiam.



Raquel de Queiroz inaugura na literatura brasileira, uma narrativa de um Brasil pouco - ou nada - encontrado nas linhas e entrelinhas de até então. Um Brasil excluído de enredos dos grandes escritores. Um Brasil sertanejo e peculiar sob a ótica e a pena de uma mulher, nordestina, intelectual e sertaneja. Foi a primeira mulher cronista da imprensa brasileira; a única escritora mulher aceita como representante no movimento modernista brasileiro e a primeira mulher eleita para ocupar a cadeira imortal da Academia Brasileira de Letras, também denominada de Grande Dama da Literatura Brasileira.



Raquel de Queiroz fixou um marco na história literária e social do país. Em seu romance de estréia, O quinze, cuja temática escolhida foi a grande seca que assolou o Ceará em 1915, sua prosa regionalista retrata, numa linguagem enxuta e expressiva, o sertão do nordeste brasileiro. Queiroz consegue amalgamar a preocupação social à preocupação com traços psicológicos dos personagens, inaugurando no Brasil, como vanguardista, o romance sertanejo, que trouxe para nossa literatura um olhar sobre o próprio Brasil, através de sua sensibilidade de mulher sertaneja, tornando-se a primeira porta voz do sertanejo em nossa literatura, mostrando sua preocupação com a temática social e política, imbuída de sua aspiração nacionalista.



A importância e contribuição dessa escritora cearense extrapolam o ambiente literário. Nesse, sua importância se traduz como pioneira e vanguardista de uma nova literatura; uma nova formação e atualização das narrativas sobre o Brasil. Narrativas, cuja estética e valores tem no homem nordestino e sertanejo, novos significados e interpretações, revelando sua cultura, agruras e toda problemática que o cerca.



No campo sociológico, sua importância não é menos relevante, pois contribuiu no sentido de resistir e enfrentar as disposições canônicas e a dominação masculina na literatura nacional, onde a mulher esteve praticamente ausente, abrindo campo para participação feminina em novos espaços de atuação no cenário intelectual do país, numa nova construção das relações sociais e de gênero.



Raquel não foi apenas uma escritora; foi uma escritora de vanguarda no movimento modernista brasileiro e pioneira na literatura regionalista sertaneja. Sua importância na literatura brasileira e incomensurável, por sua autenticidade e ineditismo na forma de se escrever no Brasil - e sobre o Brasil - estabelecendo um limiar na história literária nacional. Trata-se de uma eminente romancista, professora, jornalista, cronista, poeta e teatróloga, cuja importância será lembrada nos próximos séculos ao se discutir literatura de vanguarda, ruptura de padrões masculinos e, principalmente, o nordeste e o sertanejo brasileiro. Talvez as palavras que melhor traduzam a importância de Raquel sejam do escritor Carlos Heitor Cony: “a literatura regional nasceu com Raquel de Queiroz, sozinha, sem padrinhos, no sertão do Ceará”.