sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O(s) cerceador(es) da liberdade de imprensa


                                                                
                                                                     Por Renan Oliveira

Tradicionalmente no Brasil, os veículos de comunicação estão no comando de clãs, e isso, acredito, não é novidade para ‘ninguém’. Pouquíssimas famílias detêm o grande bolo do mercado de imprensa no país: Mesquita, Marinho, Civita e Frias, sem falar nas dinastias regionais, como Magalhães e Sarney, por exemplo, são alguns dos nomes com maior capacidade de proliferarem seus discursos a maiores geografias, e capazes, também, de formar opiniões em milhões de cabecinhas, pela audiência que alcançam. Na verdade, a ‘grande imprensa brasileira’ ainda é infantil, pois comporta-se como a opinião pública,  usurpando-a e produzindo um produto parecido com o jornalismo; nas entre linhas o discurso voraz em comandar o país, todavia; quiçá o mundo. Não se identifica nos maiores veículos e grupos de comunicação, uma posição preocupada no equilíbrio dos discursos, fazendo prevalecer uma construção parcial e limitada da realidade, tornado inútil seu propósito.

Ela, a grande imprensa, se auto-institucionalizou a voz da sociedade, auto-impondo sua opinião, como se fosse à opinião pública. Qualifica e desqualifica discursos e opiniões a bel prazer de suas convicções ideológicas, como fez, recentemente, com o presidente que, no exercício da liberdade de expressão, respaldado constitucionalmente, inclusive, dissera que no Brasil a mídia se comporta como partido político, e que cada veículo deveria se posicionar, formalmente, a respeito de seus respectivos apoios políticos partidários. A repercussão do comentário do presidente tomou dimensão gigantesca por parte da mídia nacional. Durantes os dias seguintes, editorias e reportagens eram confeccionados chamando Lula de autoritário e ditador, cujo queria amordaçar a imprensa e cecear a liberdade de expressão. Foi quase unânime a posição dos grandes veículos de comunicação do país a respeito do caso; satanizaram Lula como o monstro que quer degolar e estuprar a imprensa.

O comentário de Lula não foi nada além da verdade. Ou é mentira que a mídia no Brasil se comporta como partido? E a Veja, O Globo, Folha e Estadão? Todas elas com posições políticas claríssimas, porém veladas. Lula cutucou a onça que se irritou; tanto é verdade que, no dia seguinte a sua polêmica declaração, o Estado de S. Paulo, em editorial, repudiou as declarações de Lula, mas resolveu mostrar as caras: disse que apoiava Jose Serra para presidente. Não é muito mais honesto dizer a verdade que ficar travestida da falsa imparcialidade, como o próprio presidente falou na ocasião?

Dizer que a mídia age como partido é tentar amordaçar a imprensa, segundo ela mesma. Todavia, quem diz que um determinado jornalista mente em suas matérias, como José Serra fez aqui em Salvador com um profissional de imprensa, não é, tão ou mais grave, que o comentário do presidente Lula. Afinal, afirmar que um jornalista mente em suas matérias, somente pelo motivo de contrariá-lo, talvez, seja a mesma coisa que dizer um médico é charlatão, porque não curou uma doença. José Serra não apenas desqualificou o jornalista, mas desqualificou o jornalismo, pois a mentira não é, nem nunca foi matéria prima do jornalismo. Acusar um jornalista de mentiroso é sim tentar amordaçar a imprensa e cecear sua liberdade de expressão, mas o fato passou despercebido das reuniões de pauta e editorias de grandes jornais brasileiros. Inocuamente passou nesses espaços de deliberação política sistemática, que são as grandes redações jornalísticas no Brasil, a ameaça que senador e ex-presidente Fernando Collor fez ao jornalista da Istoé. Ele ligou para a redação ameaçando Hugo Marques, por algumas notinhas sobre o pedido de impugnação de sua candidatura. Entretanto, um pequeno comentário de Lula sobre o comportamento da imprensa, foi eleita por ela mesma, como símbolo de um presidente semi-ditador e autoritário. O mais engraçado desta trama metalinguista da imprensa brasileira, é que quando ela resolve ser pauta de si mesma, é apenas quando sente-se ameaçada, ela só não faz reportagem nem editorial, quando ela torna-se ameaça, inclusive a própria Liberdade de expressão  e imprensa.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Raquel de Queiroz: expoente da literatura sertaneja e das novas narrativas no Brasil

Por Renan Oliveira


Mulher e nordestina. Raquel de Queiroz tinha duas características para ficar à margem de qualquer movimento intelectual e pioneiro no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, se não fosse um detalhe: foi ela a pioneira. Esse fato tem uma dimensão de maior importância quando esse espaço é na literatura, tradicionalmente dominado por escritores, ainda com suas narrativas europeizadas, onde as raízes do Brasil nordestino praticamente inexistiam.



Raquel de Queiroz inaugura na literatura brasileira, uma narrativa de um Brasil pouco - ou nada - encontrado nas linhas e entrelinhas de até então. Um Brasil excluído de enredos dos grandes escritores. Um Brasil sertanejo e peculiar sob a ótica e a pena de uma mulher, nordestina, intelectual e sertaneja. Foi a primeira mulher cronista da imprensa brasileira; a única escritora mulher aceita como representante no movimento modernista brasileiro e a primeira mulher eleita para ocupar a cadeira imortal da Academia Brasileira de Letras, também denominada de Grande Dama da Literatura Brasileira.



Raquel de Queiroz fixou um marco na história literária e social do país. Em seu romance de estréia, O quinze, cuja temática escolhida foi a grande seca que assolou o Ceará em 1915, sua prosa regionalista retrata, numa linguagem enxuta e expressiva, o sertão do nordeste brasileiro. Queiroz consegue amalgamar a preocupação social à preocupação com traços psicológicos dos personagens, inaugurando no Brasil, como vanguardista, o romance sertanejo, que trouxe para nossa literatura um olhar sobre o próprio Brasil, através de sua sensibilidade de mulher sertaneja, tornando-se a primeira porta voz do sertanejo em nossa literatura, mostrando sua preocupação com a temática social e política, imbuída de sua aspiração nacionalista.



A importância e contribuição dessa escritora cearense extrapolam o ambiente literário. Nesse, sua importância se traduz como pioneira e vanguardista de uma nova literatura; uma nova formação e atualização das narrativas sobre o Brasil. Narrativas, cuja estética e valores tem no homem nordestino e sertanejo, novos significados e interpretações, revelando sua cultura, agruras e toda problemática que o cerca.



No campo sociológico, sua importância não é menos relevante, pois contribuiu no sentido de resistir e enfrentar as disposições canônicas e a dominação masculina na literatura nacional, onde a mulher esteve praticamente ausente, abrindo campo para participação feminina em novos espaços de atuação no cenário intelectual do país, numa nova construção das relações sociais e de gênero.



Raquel não foi apenas uma escritora; foi uma escritora de vanguarda no movimento modernista brasileiro e pioneira na literatura regionalista sertaneja. Sua importância na literatura brasileira e incomensurável, por sua autenticidade e ineditismo na forma de se escrever no Brasil - e sobre o Brasil - estabelecendo um limiar na história literária nacional. Trata-se de uma eminente romancista, professora, jornalista, cronista, poeta e teatróloga, cuja importância será lembrada nos próximos séculos ao se discutir literatura de vanguarda, ruptura de padrões masculinos e, principalmente, o nordeste e o sertanejo brasileiro. Talvez as palavras que melhor traduzam a importância de Raquel sejam do escritor Carlos Heitor Cony: “a literatura regional nasceu com Raquel de Queiroz, sozinha, sem padrinhos, no sertão do Ceará”.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Springtime for Kafka

O Processo contra o Lado de Fora


Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Franz Kafka encontrou-se em sua cama metarfoseado num monstruoso... homossexual. Metarfoseado não seria a palavra ideal, pois implicaria que ele havia se transformado, e a idéia de transformação indica mudança, e isso seria um exagero neste caso.

O que aconteceu, de fato, foi que ele percebeu somente então que a suposta cegueira paterna, no que concerne a sexualidade dos filhos, algum dia é curada espontaneamente. E olha que naqueles tempos o Saramago não andava enlouquecendo-nos com suas verdades ácidas. Ah não. E mesmo que estivesse, Hermann Kafka não perderia seu tempo lendo, afinal alguém tinha de cuidar dos negócios da família - e Hermann sabia que em casa não tinha outro homem para isso.

Desde que se meteu com a área do Direito, Franz Kafka - que a partir deste parágrafo será chamado de "K." - adquiriu a arrogância de achar que escondendo-se atrás de pilhas e pilhas de processos, ele veria-se livre do confronto diário com o pai e com aquele (metafórico) elefante purpurinado sentado à mesa para o jantar, rindo-se de tudo aquilo.

Ora, o pai de K. certamente ouvira, de uma forma ou de outra, de seus noivados com belíssimas donzelas. Nossa, quanto bom gosto esse meu filho tem! E compromisso?! Hah! Homem de verdade aproveita a juventude, vira conquistador, deixando as moçoilas em casa a mendigar-lhes a atenção. Eu mesmo só casei porque não teve jeito. O filhão está no caminho certo. Ah, se ao menos a realidade refletisse a verdade...

Como ele faz isso? Que tipo de visão onipotente esse Hermann Kafka haveria de ter? Se me perguntassem, diria que não culpo K. pela sua angústia. Sua mãe acreditava em seu teatrinho, custava ao pai fazer um agradinho também? Afinal, K. nunca pedira para nascer, foi regurgitado neste mundo sem autorização. Mas que violação de Direitos Pré-Existenciais! Imagino como o mundo reagirá quando alguém finalmente resolver processar o pai tirano por isso.

Ah sim, os processos, a ejaculação da burocracia. E como K. adorava lidar com eles... Do seu (metafórico) Forte Militar formado por resmas jurídicas, K. imaginava acabar logo com tudo aquilo para curtir a night do seu século com os amigos. Pasmem, meu ex-colega (e flerte secreto) inclusive sonhava em virar uma traça, para poder devorar todos aqueles papéis. Na verdade, não importa qual inseto, desde que alimente-se daquela terrível e enclausuradora celulose.

Foi sobretudo por reminiscências como essa que senti sua falta naquela manhã. Deixei o trabalho e fui procurar meu frágil amigo. Tive fácil acesso ao seu quarto, uma vez que os pais de K. não questionariam um "Oficial de Causas Jurídicas do Governo". K., atordoado com sua metamorfose, me pediu ajuda; fui pego pelo seu gaydar.

K. sabia que o juri popular foi acionado, alguém já o acusara. Mas quem? Precisava condenar esse difamador para ser absolvido. E eu iria ajudá-lo.



Continua...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Língua portuguesa: unificação da ortografia une laços entre povos e culturas

Por Renan Oliveira
A língua portuguesa comporta duas modalidades: o escrito e o falado. Nessas modalidades, as duas não têm as mesmas formas, nem a mesma gramática, tampouco os mesmos recursos expressivos. Para ampliar o espaço de comunicação entre todos os falantes da língua, várias tentativas de unificar a ortografia foram criadas desde o começo do século XX entre Brasil e Portugal. Não se pode confundir ortografia de língua; não se trata de unificar a língua portuguesa, mas apenas sua ortografia, ou seja, a modalidade escrita. Para fortalecer a língua portuguesa é necessário que haja uma forma única de se escrever, para que o alcance de comunicação entre os países lusófonos seja mais abrangente, pois acima de pequenas comunidades locais há a comunidade nacional e internacional da língua portuguesa. Portanto, faz-se necessário uma forma de comunicação escrita que sirva não só para intercâmbios entre compatriotas, como para todos aqueles que falam o português, ou para quem quer aprender, transpassando o tempo entre pessoas que vivem em lugares e épocas diferentes; uma língua escrita que vá além das fronteiras de lugar e tempo, respeitando sempre o pluralismo linguístico e as peculiaridades dos falares local, pois a língua é o principal sistema simbólico que representa uma cultura; não só expressa aspectos linguísticos, mas expressa o ambiente social e nacional. A língua expressa e identifica um povo, sua cultura e suas diversas manifestações. Quando a língua é acessível não só aos seus falantes, quando não há obstáculos técnicos e elementos que dificultem sua compreensão, ela transpassa barreiras e propaga seu povo, sua cultura e suas manifestações, a limites antes inalcançáveis. Apenas quando os indivíduos falantes de uma mesma língua expandem seus canais de comunicação, para se compreenderem e respeitarem mutuamente, através da própria língua, se autoafirmam em qualquer tempo e espaço e se posicionam como pertencentes de uma única nação.
O acordo ortográfico gerou e ainda gera muitas discussões sobre seus impactos na sociedade. Primeiro é necessário elucidar alguns pontos comuns e equivocados sobre o acordo difundido pela mídia: o acordo não unifica a língua portuguesa, apenas unifica a forma de grafar as palavras, afinal nenhum decreto poderá unificar ou reformar uma língua, pois a língua é livre, nunca permanece presa, é imutável em relação ao tempo e as diferentes regiões, com ou sem acordos. Segundo, não existe reforma na língua; são apenas ajustes na forma escrita, modificando menos de 1% das palavras. Ademais, o debate sobre o acordo se fecha apenas no círculo acadêmico onde apenas escritores, linguistas, filólogos e pesquisadores têm espaço para emitir opinião; a língua é universal e deve também levar em conta a importância e impactos para todos os falantes e não apenas aos mais “letrados”. Não podemos mais admitir que o discurso conservador de gramáticos normativos, perenize uma ideologia linguística, que despreza e estigmatiza a diversidade da língua, onde a própria língua portuguesa sempre esteve refém, principalmente no que tange ao ensino/aprendizagem. O acordo unifica a língua escrita e não a falada, por isso a importância à pluralidade dos discursos, respeitando as variedades naturais da própria língua.
A língua portuguesa é complexa, com rígidas normas gramaticais, o que dificulta seu aprendizado, mesmo aos nativos onde a língua é oficial. Sua dupla ortografia dificulta também a difusão no âmbito internacional. A língua árabe, falada em mais de vinte países, possui uma ortografia única. Assim, é necessário unificar a ortografia da língua portuguesa para que a língua alcance maior espaço, procurando mecanismos de acesso, simplificando-a graficamente, possibilitando o conhecimento do seu povo, sua origem e suas diversas representações. A unificação de sua ortografia não une apenas sua língua escrita, une também os laços entre povos e culturas; une comunidades para fortalecimento e difusão de apenas uma: a comunidade internacional da língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Mais ouvidos e menos bocas para a música brasileira

Por Renan Oliveira

Depois de um pequeno debate em sala de aula, a respeito de produção musical brasileira, quase caio em gargalhadas quando um colega disse que não se faz música como antigamente e outros dois tiveram o disparate de inferir que nem se faz música no Brasil, ou que não temos uma produção musical digna que aplauso. Claro que não rir pelo inconveniente, mas muitas vezes o pré-conceito, ou mesmo a ignorância, devem ser respondidas com longas gargalhadas, pois são no mínimo ridículas. Ora, quem não conhece um mínimo de história de música brasileira, fica o convite de permanência na tolice.

O começo do sec. XX é de extrema importância na compreensão de representações artísticas (neste caso, a música) no Brasil. Não foi neste período que os negros, recém abolidos, depois de experimentos musicais híbridos, como a macumba, o maculelê, o batuque, criaram o que viria a ser a primeira manifestação musical autenticamente brasileira, que revolucionaria a música brasileira, o samba. Simultâneo a isto, os negros periféricos dos EUA, na ruas de Nova Orleans, criavam o jazz, para posteriormente o movimento bossa nova juntar samba e jazz e criar a própria bossa. Quem nunca se interessou por samba, em sua plenitude, deve dizer mesmo que o Brasil não produz música. Quem nunca ouviu Ismael silva, que não sabe da importância de Noel Rosa e Ari barroso, quem se quer entende a poética de grandes nomes importantíssimos na música brasileira, Dorival Caymmi e Luis Gonzaga, deve, sim, continuar no estereótipo que, aliás, serve de arcabouço para o pré-conceito tão tosco quanto seu dono.

É extremamente lamentável que não se conheça a história das cantoras de rádio, na Era de ouro, no Brasil. A época, anos 40 e 50, deixaram nomes imortais na história, que ainda hoje são regravadas por contemporâneos. Desde período, Aracy de Almeida e Elizete Cardoso, a primeira cantora a gravar um disco só com musica de Tom e Vinicius se destacaram como as damas do rádio. Não menos importante são Alaíde Costa, com sua voz triste que só canta música de lamentos, e Dolores Duran que morreu jovem, mas deixou A noite de meu bem, um clássico indiscutível.

Neste mesmo período, meados dos anos 50, um movimento começa a surgir de forma tímida que toma dimensões planetárias, pela delicadeza do toque do violão e a peculiaridade da percussão, e um poética que exalta a mulher como ser perfeito: a bossa nova. Quem nunca ouviu Roberto Menescal e Silvia Telles, com o clássico Um barquinho um violão, que abre as alas para o movimento, deve insultar a si mesmo com as mesmas afirmações. Quem não sabe do respaldo que a bossa nova deu ao Brasil em questão de música, quem não sabe que quando se fala de jazz, a bossa é lembrada, quem não sabe que o Japão é o país onde se mais consome bossa nova e música brasileira no mundo, quem nunca ouviu falar em Ithamara Koorax, cantora brasileira, eleita por uma revista America especializada em jazz, a melhor cantora do gênero em 2006, revista cuja já teve outra brasileira nos anos 70 e tem João Gilberto sempre no topo desta lista. Deve não ser de conhecimento também que Pepel Gomes, baiano, está entre os dez maiores guitarrista do mundo, numa lista onde Jimmy Hendrix e B.B. King estão presentes.

A bossa nova é um gênero tão aclamado no exterior que Bebel Gilberto é a cantora brasileira que mais vende discos nos EUA. Outro brasileiro, Sergio Mendes, é uma dos cantores brasileiros mais populares neste país. Ella Fitzgerald gravou um disco só com músicas de Tom Jobim. Sarah Voughan gravou três discos de musica brasileira e dois com Milton Nascimento e Dione Wavick dedicou um disco com compositores brasileiros. Frank Sinatra gravou um disco com Tom Jobim e João Gilberto gravou dois com o saxofonista Stan Getz. Louis Armstrong já cantou ao lado de Elza Soares e Tom Zé gravou um disco também com David Byrne. Não estou dizendo que a musica brasileira é boa porque os americanos gostam, até porque temos o Japão para mostrar o contrário e a França que aclama Seu Jorge e Marcos Valle sem falar que Adriana Calcanhoto é referencia de musica brasileira em Portugal.

Depois da era do rádio, a TV teve primordial importância na história da música, com os festivais de musica na TV, nada parecido com os ídolos ou Fama, claro. Destes festivais se revelaram Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina, entre tantos. Abro parênteses para dizer aos atiradores de elite que pensam que “MPB” são estes quatros cantores acima citados, ao lado de Gal e Bethania que é, no mínimo, medíocre.
Claro que o movimento tropicália tem fundamental importância, mas existem motivos e motivos para sua popularização, como o contexto político e cultural, afinal havia um movimento de contra-cultura importado neste movimento.

Penso que seja pertinente mencionar o movimento Clube da Esquina, no nos anos 70, que acontecera em Minas Gerais, ao qual está a frente Milton Nascimento, Lô e Macio Borges, Beto Guedes e Flávio Venturini, é impossível não citá-los aqui, pois foi o ultimo movimento notório antes do termino da ditadura. Ouve também um movimento em São Paulo chamado Vanguarda Paulistana com Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, cujo estes senhores de nobreza erudita nunca devem ter ouvindo se quer seus nomes.

Seria pecado mortal se esquecer aquilo que não se esquece. O Samba popular dos anos 60 e 70. Aqui, devo prestar reverencias a contribuição de senhores maiores para a solidificação de uma expressão musical autentica e perene ao qual Pixinguinha, Cartola, Adoniran Barbosa, Ataulfo Alves são representantes imortais desta época.

Perece até que o espírito saudosista me invadiu, mas a contemporaneidade não deixa a desejar. Talvez até produzimos mais musica que antes, pois hoje a facilidade é maior que se gravar um disco que a algumas décadas. Para a nova geração, cujo alguns críticos chamam de nova música brasileira, Monica Salmaso e Ana Martins representam bem nossa cultura musical, fazendo de seus trabalhos uma contextualização do passado e presente. Na Ozzeti, Jussara Silveira, Roberta Sá e Bruna Caran, esta de apenas 21 anos, são obras primas e uma evidencia obvia que no Brasil se faz musica de qualidade sim, o que faltam, talvez são ouvidos e menos bocas para dizer o que não se sabem.

No Rio de Janeiro há um movimento bastante interessante que é o Soul Brasil, onde novos cantores utilizam do seu brilhantismo para fazer um trabalho legal, mesclando com o soul, funk, blues, jazz e samba. Desta ala, Max de Castro e Wilson Simoninha se destacaram, mas sem esquecer-se de Paula Lima e Funk Come Legusta, Luciana Melo, Jair Oliveira, Zé Ricardo, Claudio Zoli, Max Viana, Daniel Carlomagno, entre outros. Este movimento tem influencia diretamente de integrantes deste mesmo movimento, só que nos anos 70, que tinham Jorge Ben, TIM Maia, Cassiano, Hyldon, Carlos Dafé e Wilson Simonal, pai de dois da nova geração, como precursores.

Naturalmente que existem questões como uma indústria cultural, que degola a arte aqui em qualquer lugar, e comportamentos culturais de um povo que está relacionado, acredito eu, com o modelo educacional e com os parâmetros aos quais se estabelecem tais comportamentos. Agora é necessário que estas pessoas que acreditam ser mais letrada e consciente da realidade, dispam o traje do pré-conceito para compreender a mesma realidade de forma sensata. Estas pessoas, que parecem só conhecer Ana Carolina, Ivete Sangalo e Vanessa da Matta como representantes da música brasileira, devem realmente continuar na estupidez e esperar ver Naná Vasconcelos ou Adriana Deffenti no fim de semana na TV, ou que a revista Veja faça um notinha vagabunda sobre Syvia Patrícia, devem esperar as rádios populares fazerem entrevista com Max de Castro, pois não irá acontecer.

Uma forma de conhecer e compreender música brasileira é ouvindo a rádio Educadora(107.05), já que esta emissora não tem contrato com gravadora, portanto executa diariamente todos os artistas citados acima. Existem também sites especializados em (outra) música brasileira, que é o sintoniafina.com.br, de Nelson Motta, jornalista e produtor musical, que nutro profunda admiração. Aqui em Salvador, o Teatro Gamboa Nova, tem shows de quarta a domingo, com artistas baianos dentre eles Juliana Cunha e Virginia Prado; quem quiser acessa o site do teatro que tem a programação completa.

Enfim, apenas acredito numa máxima: a música brasileira precisa de mais(bons) ouvidos e (muito) menos bocas dizendo besteiras.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Como ser um Intelectual brasileiríssimo sem ser afetado pela terrível Crise

Recentemente fui ao Pelourinho e adjacências, tinha de tentar trocar alguns livros que não me agradaram muito por razões que talvez sejam contadas num outro texto. Não consegui o que queria, as condições de trocas e preços ofertados por eles me pareciam um tanto injustos. Fui andando por aquelas ruas históricas, sentindo o cheiro de cajá e umbu sendo indiretamente cozidos sob aquele sol de "quase meio-dia", imaginando quais os motivos para a existência de algumas trapaças, mesquinhas ou não, inocentes ou propositais, naqueles focos de intelecto, que em minha visão romântica não achei (preferi não achar) que pudessem brotar tão naturalmente.

Fatigado (seria o peso da mochila? seria a decepção? seria o calor usual da cidade?), continuei, obstinado, errante, ansioso pelo conforto da virada de sorte que nesta terra vem em forma de ocasionais ventos frios. Passo por lugares-comuns em monumentos, eis que chego, ao entardecer, em uma pracinha perto do Teatro Villa Velha.

Sentei num dos poucos bancos não ocupados pelos desafortunados mendigos. Estava terminando um breve lanchinho, a opção mais barata de enganar o estômago; uma senhora, mendiga como os outros, sentiu uma certa simpatia por mim e aproximou-se. Pediu um pouco do refrigerante do qual só havia tomado um único gole; ofereci-lhe então o copo inteiro, sentindo-me instantaneamente culpado segundos depois por ter dado algo pouco saudável a alguém que estaria há horas com o estômago vazio. Não tive um grande dia e ainda ajudei a piorar a gastrite de uma pobre idosa.

Conversei um pouco com ela (talvez assim ela se esqueceria do mal estar estomacal que sentiria em instantes); ela, como já esperava, perguntou-me se eu era "dos estrangeiro". Respondi-lhe que não - você nasce moreno, com um sinal na testa, e quando não te chamam de árabe ou indiano, certamente atribuem isso a uma porra de uma novela. Enfim, expliquei-lhe o que me acontecera anteriormente e ela percebeu que eu gostava de ler. Ela então vira-se com uma alegria própria de alguém a ponto de gritar "Eureca!" e me diz que eu devo ir mais adiante até encontrar um cara "alternativo". "Ah, a senhora conhece esse termo?", disse eu, ao que ganho como resposta "Oxe, é claro! Daqui há alguns anos, também vou ser promovida a isso!".

Estava de férias. Não tendo mais o que estudar, fui atender o pedido da pequena senhora pré-alternativa. No caminho, pensei em voltar só para agradecer-lhe por mostrar o caminho ao que parecia ser meu futuro "Coelho Branco", mesmo que ela não entendesse essa referência. Encontrei o tal cara alternativo e estava seguro de não ter me equivocado: ele usava uma daquelas camisas indianas, colarzinho de praia, sandálias de couro (ou, como vim a saber mais tarde, "percatas de couro", como chamariam-nas em seu bairro) e fumava seu fiel baseado.

Maravilhado com seu personagem, disse-lhe que havia sido enviado até ele pela senhora Maryanne. Imediatamente ele bradou "Já começou errado, playboy! Pode ir tirando essa porra desse ípsilon daí, isso é coisa de burguês capitalista; tá no Brasil tem que falar Português!". Perguntei-lhe como sabia que havia tal letra em minha fala, ele respondeu que além dos poderes mágicos da maconha dele, ele via que eu não era alternativo como ele, mas que trazia livros, portanto meu caso era gravíssimo.

Meu caso? Adorei isso, sequer tinha idéia de que estava doente. "Sim, em estágio terminal", disse-me meu novo amigo, que refutou seu apelido de Coelho Branco e preferiu ser chamado de Platão do Calabá, ou somente PC.

Não aceitando um diagnóstico simplório, exigi que me dissesse do que sofro e qual é a cura. "Vou falar do que você sofre, mas a cura, a qual saberá só no final de nossa conversa, não poderei te dizer completamente". "Por quê?", pergunto eu, desesperado e inferior. "Porque no clube do qual faço parte, no qual espero que decida entrar, há um código de leis imaculável!".

"Diga logo, homem! Vamos, diga!", disse eu.

"Terei de lhe contar antes como me tornei assim", disse PC, um exato milésimo de segundo antes de sua baforada anuviar o ambiente, de forma teatral e afetada.

"Eu costumava ficar vagando por aqui também, era que nem aquela senhora: um desabrigado. Aí encontrei um cara vestido como estou agora, ouvindo seu MP3 recheado de músicas de reggae e Legião Urbana. Em breve eu também vou comprar meu MP3 para colocar minhas musiquinhas superlegais com um dinheiro que será muito diferente do seu dinheiro capitalista, porque ele será meu dinheiro, dinheiro de intelectual soteropolitano e brasileiro com orgulho.

Então, esse cara se chamava Kyle Washington Pereira Silveira. Ele detestava esse nome, que sua mãe ('aquela idiota, uma mulher ignorante do interior') tão carinhosamente havia lhe dado. Disse-me que detestava tudo escrito em inglês, mas me garantiu que não era por causa da frustração que ele tinha por ser capaz de decorar trechos de filósofos como Schopenhauer e ser incapaz de lembrar-se do 'Verb To Be', o qual lhe foi repetido durante mais de uma década no colégio público, ou de aprender qualquer outra língua. Pediu então que eu o conhecesse somente por Caio Uoshitu Pereira Silveira, pois além de seu primeiro nome soar brasileiríssimo, o segundo soava asiático e todo intelectual deste século terá de se converter aos costumes orientais, de acordo com seu próprio manual intitulado 'Como ser um intelectual brasileiríssimo sem ser afetado pela terrível Crise'. Ademais, para os idiotas e ignorantes (tais quais sua própria mãe) que não saberiam pronunciar seu primeiro nome, ele sempre teria um nome de cachorro.

Caio Uoshitu, com seu drama homérico mais intenso e teatral que qualquer grupo de atores de quaisquer universos possíveis e imagináveis, conquistou minha atenção de mendigo alcoólatra, despertando um sentimento tão forte em meu âmago que me deixou confuso - não sabia se queria peidar para que ele parasse com o teatro ou se era a minha nova paixão: tornar-me um intelectual de butique. Meu ânus não disse nada, então com certeza era a segunda opção.

Caio me disse que a primeira regra de ouro do manual é: 'Se não sabe, finja que sabe'. Brilhantemente ele me disse que isso estava diretamente ligado à Crise que estamos vivendo: ninguém pensante sabe explicar de forma clara como uma crise que começou nos Estados Unidos está nos afetando tremendamente aqui no meu Brasilzão de Ronaldinhos e Pelés, mas todos sabem fingir que sabem. Nós, como intelectuais, temos de nos unir à esperteza daqueles que aumentam os preços de tudo 'por causa da Crise', temos de adquirir o espírito, a malícia, o 'jeitinho brasileiro' tão querido.

A segunda regra de ouro é: ouça Jazz e outros estilos de música que só velhinhos e outros intelectuais ouvem, -"

"Hah! Uma vida de Jazz e bebida! Eles deveriam ouvir esse discurso quando planejavam a campanha de marketing de 'Chicago'", interrompi.

"Porra! Cale a boca! Não podemos citar filmes que não estão na lista dos Filmes para Intelectuais! Isso SE tivermos de ver filme, porque cinema e DVD são coisas de burguês ignorantes!

Então, como eu dizia: ouça essas músicas assim. Se não sabe onde baixar na internet, eu lhe direi assim que você aceitar fazer parte do nosso clubinho, conhecemos um site superlegal cheio dos CDs mais superlegais do mundo. Não importa se você não entende porra nenhuma das letras das músicas porque você não sabe falar nenhuma outra língua além desta. Apenas levante a cabeça e abra os braços quando falar desses estilos, aprenda com a estátua de Castro Alves, aquilo é a perfeição! Isso dá uma aparência de quem sabe o que fala, e é só isso que os outros precisam ver você fazendo.

A terceira regra de ouro é: goste de reggae. O reggae é bom porque você pode se permitir dançar um pouquinho, naquele jeitinho desengonçado de quem tenta reprimir sua vontade de dançar qualquer outra coisa. Ah sim, ainda tem o bônus! Sim, o bônus de afirmar que entende a força política das músicas, mesmo que na letra você só ouça 'Beba Quiki e não beba Nescau', pois o poder revolucionário daqueles que escolhem uma marca inferior de achocolatados para combater a tirania capitalista é simplesmente evidente.

A quarta regra de ouro é: goste de Legião Urbana. Sim, pois veja bem, eles são de lá dos anos 80, sei lá, mas você sabe que alguém mais inteligente e mais velho que você curte, então é sua obrigação gostar. Quem liga para as novas bandas que podem estar tentando conseguir uma vaga no cenário baiano de rock? Quem liga para o fato de que elas poderiam mostrar letras tão boas quanto ou ainda melhores que as de Renato Russo? O saudosismo é fundamental em nossa vida intelectual. Quem liga se você já ouviu 'Pais e Filhos' umas 5.378.987 vezes em vários cantos da cidade? Há sempre espaço em sua mente para a vez número 5.378.988.

A quinta regra de ouro é: vestir-se 'alternativamente'. Ser alternativo é não cair em modismos, por isso a nossa moda consiste nas seguintes peças: camisa 'indiana', de Bob Marley ou de Legião Urbana; colarzinho de praia (basta que seja de palha ou algo que só pareça ser), sandálias de couro (se não quiser ir no centro da cidade para comprar uma pelo risco de ser assaltado, vá numa loja de mauricinho no shopping que lá tem, ninguém vai saber a diferença, é só dizer que a sua não fede a merda de cabra porque você comprou há um ano); a calça, bermuda ou short não fazem tanta diferença, desde que pareçam meio hippies e não mostrem nenhuma marca de grife.

E aí você me pergunta: 'Senhor intelectual, mas e tem mais algum truque no visual?' e eu digo 'Calma, rapaz! Vou te dar mais umas dicas!'. Então, nada de perfumes. Cheiro de intelectual alternativo soteropolitano brasileiríssimo é um só: o de transporte público. Nada de perfumes, isso é coisa de burguês! Você acha que Marx usava perfume? Porra nenhuma, ele cheirava a proletariado, meu filho! Se Marx cheirava a isso, a operários, nós, que estamos sempre pendendo para o Anarquismo e jurando ser de Esquerda, temos de ir além e cheirar a operários enlatados! Ah sim, se puder jogar umas pitadas de terra em suas calças ou bermudas, melhor! Você tem que deixar transparecer um lado ligado à terra mesmo, sabe? Como um sinal de que você ainda não é ativista ambiental, mas pensa no assunto; uma maneira de dizer que também se preocupa com os mendigos e os faz sentirem-se iguais a você (e ainda tem o lado bom de que se você se disfarça assim, eles vão ter pena de você e não vão te assaltar)".

"Mais alguma coisa?", disse eu, entediado.

"Sim, na verdade temos uma sexta regra de ouro: gostar de futebol. Mas nós tivemos de retirar essa, porque cinco sempre parece ser um número mais místico, seis parecia ser muito fraco. Mas também, quem não gosta de futebol não é brasileiro. Bem, você viu que seu destino o trouxe até mim, eu fui iniciado no ritual e busco discípulos. Você irá se unir a nós?"

Houve uma pausa longa. Após uma breve reflexão, desabafei.

"Senhor intelectual, me desculpe, mas terei de recusar sua oferta. Se eu não sei algo, eu simplesmente digo, assim me livro de quaisquer responsabilidades sobre informações falsas. É melhor se passar por burro uma ínfima vez e me redimir com classe depois com um vasto conhecimento. Já ouvi Jazz, até gosto, mas ainda tenho uma forte paixão com relação à música clássica ou instrumental pela liberdade de interpretação. Não curto reggae; não nego sua importância em certos movimentos políticos, falo inglês e compreendo que algumas músicas realmente buscam incitar um certo espírito libertador, mas o arranjo musical em si não me chama muito a atenção, prefiro deixar para aqueles que REALMENTE entendem todo aspecto desse estilo. Não digo que odeio Legião Urbana, apenas enjoei da lavagem cerebral que fazem com toda a população e do olhar de pena que te dão quando você diz que não curte. Além disso, não acho que a voz de Renato Russo seja magnífica. Quanto ao meu vestuário, prefiro optar por algo entre conforto e estética (por mais pessoal que seja). Se me fosse dada uma jaqueta de Giorgio Armani, não a recusaria se me agradasse. Vejo que, na verdade, ganhar o status de intelectualzinho aqui dá muito trabalho e acho que não vale a pena".

"Mas em instantes eles terão uma apresentação de Jazz logo ali, descendo a ladeira, no MAM, eu o apresentarei a todos os meus amiguinhos superlegais e eles nem notarão que você pode ser a ovelha negra!", disse PC.

"Não, obrigado", disse eu.

"Por favor, os Emos estão nos derrotando e correm o risco de quererem se vestir alternativamente como nós! Precisamos de mais membros!", disse PC.

"Vocês e os Emos são as mesmas coisas. Vocês tentam lutar para não transparecerem que na verdade não gostam de tal música ou sequer gostam de futebol, os Emos parecem lutar para esconder que são gays ou que estão passando por aquela fase da adolescência em que questionam suas sexualidades; vocês todos usam clichês e modismos como escudo. Garanto que em breve você vai querer colocar um dread no cabelo ou adotar um estilo rastafari. Eu prefiro fazer minhas próprias merdas sozinho", disse eu.

Voltei para casa irritado com a ironia daquele dia. Eu, que pensava ter "enganado" a senhora com gastrite, fui castigado por ela com a presença de um intelectualzinho. De agora em diante, compro suco quando ando pelo centro da cidade. Acho que vou passar a comprar um sanduíche extra também. E avisarei a qualquer mendigo que lhe pago outro sanduíche, caso tenha dinheiro, só para não ser importunado por um modismo encarnado de novo!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Pirataria e democracia- Estado omisso e indústria capitalista proporcionam a pirataria e o acesso universal da música

Por Renan Oliveira
O debate acerca das novas tecnologias, que modificaram os padrões musicais em dimensão planetária, são inúmeros que, ora chega a um mesmo ponto, ora divergem-se. Se, por um lado, os artistas do som ganham maior liberdade, o mercado formal da música e seus mega-empresários choram suas perdas monetárias significativas.

A pirataria é uma realidade amargante para as gravadoras que tentam usar diversas estratégias para sobreviver a esta selva. Os truques são diversos: institucionalizar seu cast para manter certos artistas no auge de fama e garantir as vendas de seus discos; fazer aquelas chatíssimas regravações para arrancar até a alma de certos artistas, que só gravam aquelas músicas que o público sabe de cor. Isto- e muito mais- são algumas das saídas que a indústria fonográfica encontrou para sair do vermelho, que, por sinal, faz tempo que o sinal verde não abre, além, claro, da união de grandes empresas fonográficas, típico na ditadura capitalista quando a beira da falência.

A pirataria deve ser observada e analisada por diversos pontos de vista. Deve haver um empenho e um debate de profundeza maior, para que não fiquem apenas as gravadoras jogando para cima do Estado e este, em cima das gravadoras, pois ambos fazem da arte um instrumento de lucros e mais lucros e hoje vivem suas dores de cabeça. (E porque não no bolso?)

A pirataria de discos, pelos menos em que os discos são vendidos na forma física no comércio popular, pode ter diversos aspectos em seu contexto, tais como sociais e econômicos. Não adianta aumentar o preço para recompensar as baixas nas vendas, como fazem os editores de livros, pois é tão paliativo quanto ineficaz . Talvez se as gravadoras e o Estado tivessem um empenho sério sobre tal assunto, os impactos da pirataria pudessem ser menores, pelo menos. Se o Estado zerasse toda a carga tributária do disco, como deveria fazer com o livro, e as gravadoras diminuissem suas ambições pelos lucros, que chegam a ser exorbitante, poderíamos ter discos muitíssimo baratos e, quem sabe, até os próprios ambulantes venderem, de forma legal, os discos que pederia se tornar acessível a qualquer pessoa que passa numa passarela, em vez de ficar restrita aos que podem ir ao shopping.

Como é sabido de muitos, a internet, neste aspecto, traz uma aspecto importante que é a democratização da arte(a música), claro que certos grupos não estão interessados em democracia. Acredito que a arte, neste caso, a música, deve ser acessível a todos, independente de classes sociais ou gêneros musicais. O Estado deve se incubir de proporcionar o acesso da música a todos. A pirataria se resume, talvez, pela incúria que fez do Estado um agente omisso frente a realidade.